Insatisfação no trabalho

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Uns querem emprego, outros sumir de lá: sobre a insatisfação no trabalho

“Ontem eu me aventurei a passear por lojas de shopping em busca de presentes de natal para meus priminhos pequenos. Era um sábado, lojas cheias, clima natalino, filas enormes e praticamente a cidade toda havia decidido ir para lá. Entrei em várias delas procurando brinquedos que fossem a cara deles e pude observar algo, que na verdade já vinha notando há algum tempo, mas que se acentuou nesse período de fim de ano: a quantidade de funcionários reclamando sobre estar trabalhando.

   Todos os dias vejo um monte de gente suplicando por um emprego, eu também já fui uma delas e demorei seis meses para conseguir me recolocar, senti na pele o quanto o desemprego mexe com o bolso e a auto-estima. Mas por outro lado, diversas vezes entro em lojas ou sou atendida por telefone por pessoas que parecessem querer sumir daquele trabalho. E juro que não tenho a intenção de me colocar em cima de um pedestal e dizer que todo mundo deve abaixar a cabeça e trabalhar quietinho, pelo contrário, o que me intriga é sobre a insatisfação no trabalho que parece crescer a cada ano, de um modo geral.

   Na semana passada notei que abriu uma loja nova por aqui ao passar em frente a vitrine. Vi um vestido lindo que me chamou a atenção, e eu preciso contar que vivo na saga de procurar vestidos bacanas que possa usar pra dar aula ou palestrar, nesse caso eles não podem ser justos ou decotados, mas também não quero parecer ter mais idade que tenho, então é sempre uma dificuldade encontrar a peça certa. Ao ver o vestido na vitrine eu tive vontade de entrar lá, mas como era difícil estacionar e eu não havia saído com esse objetivo, deixei pra lá. Alguns dias depois aquela loja inaugurou oficialmente e eu comecei a olhar o Instagram deles. Pedi informações sobre algumas peças e me deram, então eu decidi ir à loja, finalmente. Ao chegar lá, estava trancada, de modo que eu precisava bater na porta de vidro para abrirem pra mim. Eu bati, eu fui vista, mas levou ao menos um minuto para abrirem pra mim, não sei por quê, mas fui ignorada. Assim que entrei fui medida da cabeça aos pés e não consegui me sentir a vontade, a dona da loja parecia ter o rei na barriga. Mesmo assim provei algumas peças e acabei comprando e quando comentei que pagaria a vista, ela virou minha melhor amiga no mesmo momento e passou a me bajular e elogiar. Sabe, eu estou cansada dessa coisa de pedestais e julgamentos, donos de lojas e vendedores precisam do cliente e clientes não podem ser julgados ou medidos. Já fui maltratada estando bem arrumada e mal arrumada, não consigo entender o que há.

   Mas nesse sábado no shopping, enquanto eu entrava nas lojas ouvia umas conversas que como cliente não deveria ouvir. Sim, eu sei que está todo mundo ansioso com o natal e louco para descansar, mas precisamos ser cuidadosos. Em uma loja eu ouvi dois funcionários conversando alto, enquanto não trabalhavam, mesmo com a loja cheia, sobre “que saco, amanhã eu vou ter que trabalhar também, até às 21h”. Em outra loja, vi caixas conversando uma com a outra falando mal de sua chefe. Em outra, enquanto estava no provador, ouvi vendedoras falando mal de uma cliente que havia acabado de sair, dizendo coisas do tipo “você viu que horror o vestido nela, mas eu falei que tava lindo, né”. Em outra loja vi funcionário vidrado no celular sem atender quem chegava. E mesmo quando falamos sobre donos de estabelecimentos ou atendimentos em redes sociais, parece que o pouco caso reina, que tanto faz. Não vim dar lição de moral, é realmente difícil trabalhar enquanto se poderia estar em casa ou descansar, é realmente tentador falar do outro e conversar enquanto se trabalha e eu estava ali na posição de cliente, passeando, fora do meu horário de trabalho, mas eu também já havia dado duro e trabalhado ao menos 46 horas na semana envolvida em aulas e clientes.

   Existem alguns tipos de serviços que se você quiser manter uma clientela vai precisar ralar ainda mais, porque não basta ser bom no que faz. Salão de beleza, por exemplo, a mulher que vai nele quer sair de lá se sentindo linda, pra cima. Mas se ela experimentar um atendimento negativo, um profissional que fica compartilhando seus problemas pessoais ou impontualidade, tudo vai por água abaixo, não importa o quanto o serviço em si seja bom. Nesse caso é o pacote todo que faz a diferença, não o ato de mexer no cabelo ou unhas, apenas.

   O que é que está acontecendo as pessoas e por que elas estão tão longes de se sentirem realizadas em seus trabalhos? Por que é que sonhamos e imploramos por um emprego quando estamos desempregados e logo depois queremos sumir daquele lugar ou ficamos desanimados ao ponto de atender mal um cliente?

   Não se trata de ser falso e virar uma máquina de sorrisos, mas atender bem ao cliente é um dever, sempre. Todos os dias ficamos diante de pessoas de todos os perfis possíveis, para alguma delas um bom dia ou um sorriso será o único que ela receberá. Tantas vezes aquela compra foi feita com muita dificuldade e a experiência negativa pode deixá-la triste. Por outro lado, do outro lado do balcão também precisamos olhar para o vendedor, que tantas vezes está ganhando uma merreca, tem um filho ou um pai doente em casa, está com dor ou muito cansado. Que dos dois lados possamos ser mais simpáticos mais humanos.

   Muito se ouve atualmente que diferente das gerações mais velhas, as novas gerações já não trabalham mais apenas pelo salário, elas buscam flexibilidade, sentir-se parte e contribuindo com aquilo e até aceitam ganhar menos desde que possam se sentir felizes. Mas vamos ser cuidadosos com esse discurso, porque ele infelizmente não é possível para todo mundo, muita gente nesse mundo trabalha para ganhar valores insignificantes e não tem como escolher nada.

   Durante anos eu fui funcionária de empresas, mas não conseguia me conformar com o formato de dedicação exclusiva por 40 ou 44h semanais, eu me sentia presa e improdutiva, porque não era apenas por estar sentada em horário comercial que eu estava plenamente produtiva e criativa e talvez eu pudesse fazer o mesmo em menos horas. Aos poucos, fui me preparando para que um dia pudesse ter meu negócio e fazer minhas próprias horas, esse dia demorou a chegar, mas chegou e hoje eu ainda trabalho muito, mas com mais flexibilidade. Porém, entendo que nem todo mundo quer empreender ou tem perfil para isso.

   De todo modo, existe algo por trás do mundo do trabalho que talvez não esteja sendo discutido: por que as pessoas estão tão infelizes em seus trabalhos, mesmo em épocas de desemprego em massa?

  • A primeira resposta pode estar nos modelos de trabalho ainda antiquados, que em alguns segmentos começam a se reinventar. Há funções que não é preciso estar presencialmente ou preso durante 40 horas, por isso tantos profissionais estão migrando para um modelo home-office e trabalhando sem precisar ir até o local.
  • A segunda resposta pode estar em como os chefes desses trabalhadores insatisfeitos se portam, eu sei de muita gente que em pleno 2016 vive situações análogas à escravidão, obedecendo a carrascos que não deveriam estar nos posts em que estão. Quando isso não acontece diretamente e o tal chefe não é, necessariamente um carrasco, pode estar faltando liderança que inspire as pessoas, ou seja, estão faltando líderes que tirem o peso dos ambientes corporativos, que olhem mais para as pessoas, que confiem mais nelas. Neste sentido, ainda, o problema também pode estar na cultura da empresa, que é incompatível com a visão do funcionário. Ou no RH, que não apoia transformações e planos de carreira.
  • A terceira resposta pode estar nas escolhas erradas por profissões (quando essa escolha é possível), na falta de oportunidade e no desânimo que impede alguns profissionais de progredirem em suas áreas, de terem acesso a cursos que os permitam aprender e evoluir e, assim, conquistar oportunidades melhores. Envolve ainda, uma remuneração muito ruim, que não ajuda a motivar.
  • A quarta resposta pode ser sobre expectativas altas que criamos, aguardando ansiosamente o dia em que tudo estará perfeito, que teremos tudo que queremos ter, que ganharemos na loteria e aí, enquanto esse dia não chega, tudo fica ruim e desmotivador. Trabalhar expectativas e viver mais o presente é importante.
  • A quinta resposta pode ser o medo de tentar formatos novos, a falsa segurança que a carteira de trabalho assinada oferece, o comodismo de ser um profissional apenas das 8h às 18h que faça chuva ou faça sol continuará ganhando o mesmo valor, versus aquele que se arrisca ao empreender e tenta algo novo. Não necessariamente você precisa de um emprego nesse formatinho de sempre, talvez você só precise de trabalho. O problema é que crescemos ouvindo que o certo era ir até um local e ficar lá a semana toda esperando uma ordem e quando ficamos diante de tentar algo novo que nos fará realmente se dedicar para fazer acontecer, pois sem isso o retorno financeiro não bem sentimos medo. O perfil empreendedor não é pra todo mundo e nem todo mundo almeja ter uma empresa.

Mas em todos os casos é preciso se perguntar e refletir sobre o que é que está te incomodando atualmente e como isso poderia ser diferente. Enquanto essa resposta ou solução não vem, que possamos ser os melhores vendedores, atendentes, profissionais, chefes/líderes e clientes que possamos ser, afinal, do lado de lá, não importa qual ele seja, estão seres humanos, sempre.

E você, que outro motivo poderia citar que contribui para a insatisfação no trabalho?”

Texto brilhante de Flávia Gamonar retirado em:  Linkedin – Flavia Gamonar

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